Vício ignóbil de linguagem

Mania feia esta de dizer eu te amo. Vício ignóbil de linguagem. Amor é coisa sagrada. Não se pode invocar em vão. É como o nome de Deus. Não adianta chamar toda hora. Amor é surdo. Mistério que ninguém consegue expressar em palavras. Nem com a conjugação correta dos verbos. Prosopopéias. Metáforas. Arrojos. Acrobacias. Subterfúgios. Devaneios. Solilóquios. Sussurros.

Amor é bicho difícil de domesticar. Espírito encantado das colinas. Pluma que se perde ao vento, mas por vezes cai em nossas mãos. É grão de mostarda. Mar morto. Capadócia. Amor é viagem que a gente imagina. Sonho em madrugada fria. Sobrado velho pintado com as cores do inefável. Por isso, é bonito. Cega a vista. Cega a alma. Deixa a gente louco. Estarrecido. Calado. Cheio de lágrimas no canto dos olhos.

Amor é canção de roda. Esconde-esconde. Amigo invisível dos meninos que correm na praça. Carta amarelada das mulheres no alpendre. Rosto na janela. Pão sobre a mesa. Risada interminável.

Amor é gesto. Corpo. São olhares que se entrecruzam de manhãzinha. Não é dizer. Não é conversa. É ato abrupto. Abraço apertado. Silêncio.


Rés-do-chão

“O bicho, meu Deus, era um homem”. (Manuel Bandeira)

Aquele homem viverá – ali – sem rima. A morte será a sua poesia daninha, feito coisa que não serve para mais nada. Viverá sem estrofes e metáforas rarefeitas à esquina da Rua Cipriano Barata com a Travessa Brigadeiro Jordão. Com cachaça e pão seco andará pelas ruas. Sujo. Escuro. Amargo. Falará sozinho. Invejará gaviões e passarinhos. Mas não parecerá nem um nem outro.

Aquele homem – quando vier a chuva – ancorará as suas quinquilharias à porta de um mercado de peixes e adormecerá aturdido sobre sacos de sal. Aquele homem – quando vier o sol – amparará plumas e botões de jacintos sobre um colchão rasgado e um cobertor puído.

Terá cães, gatos e lagartos famintos a sua volta. E os pombos enfeitiçados amarão os seus ombros sofridos. Farão casa. Ninho. Suíte de hotel. O grude do chão amará as suas mãos. Os pés. Os tornozelos. O mau hálito amará a sua boca. O sono estará com ele noite e dia – até que hora ou outra aquele homem acorde e veja o rosto esbranquiçado de Virginia Woolf à sua frente. Quando isto acontecer ele morrerá sem entender por que chove tanto no Brasil.

Lembrará de sua mãe, de seu pai e de Lulu – a cadelinha que cuidava dele quando os pais iam trabalhar no canavial. Terá fome. Sede. Dor de barriga. Terá saudades de quando criança o vô Walfredo dava-lhe presentes de natal e a tia trazia bolo de chocolate.

Aquele homem – velho, podre, barbudo, trapo humano das ruas, aquele rato imundo que só Manuel Bandeira soube descrever – rirá longamente de Deus no julgamento final. Olhará o Senhor dos auspícios e dirá alto: você é o culpado. Tirará do bolso um folheto amarrotado onde está escrito um verso de Fernando Pessoa: tudo vale à pena se a alma não é pequena. Depois andará tribunal adentro para fumar cigarro com o demônio.


O coração do diabo

[esboço]

Duas bêbadas magrelas: pernas e braços maiores que o resto do corpo. A boca maior que o resto do rosto. Misturam cerveja: uísque: cigarro barato em brindes blindados: cacos de vidro: copo americano. E riem esquecidas sobre a calçada duas bêbadas magrelas. O estômago estreito e o fígado largo. Elétricas. Falantes. Fungam a respiração do ar que resta no pulmão espumado. Ardido. Não têm dinheiro. Só centavos imprecisos perdidos no bolso. Sentadas em tambores altos cruzam as pernas. Cruzam os braços. Enquanto a televisão anuncia que o fim está próximo. A chuva vai derrubar todo mundo. Duas bêbadas magrelas devoram esfomeadas o coração do diabo. A vida sozinha caminha . Noite a dentro.


Dona Maura

Dona Maura retirou-se. Deixou a pobreza de São Salvador e ganhou a pobreza de São Paulo. Sem precisar pagar prestação. O cão, o gato, o periquito e os parentes gaiatos ficaram nas ladeiras do Pelourinho. Na escadaria de alguma igreja antiga-antiga.

Dona Maura – mulher cizenta, de olhar fundo e rosto quebrado – agora cata transtornos nas ruas da maior cidade do Brasil. Lata. Papel. Garrafa de plástico.

Investigando sacolas de lixo  já encontrou, à porta dos edifícios, retratos, recados e cartas rasgadas. Só não achou ouro e prata. Nem pedra de ametista. Dessas de anel de princesa em conto de fada.

Dona Maura, outro dia, deu pra conversar. Contar histórias. Explicar desafetos. Lembrou de uma prima risonha que vende cocada nas mediações do Farol da Barra. E do avô analfabeto, trabalhor de plantação de cacau. O velho até conheceu Jorge Amado na época que o escritor (moço-moço) fugiu pros lugarejos distantes da Bahia.

Dona Maura  chorou. A casa dela alagou com a cheia do Tamanduatei, um rio-esgoto. Depois deste acontecimento Dona Maura sumiu. Ficou envergonhada.

Não quis admitir que pobreza, esta ou aquela, amolece coração.


A vida

“A sorrir eu pretendo levar a vida”. (Cartola)

Por que a vida não melhora? Não se ajeita? Não arranca da cara este monte de cravos? Não pinta os beiços com batom? Não compra um vestido rosa choque? Não sai à noite pra beber?

Meu Deus, por que cargas d’água a vida é assim tão sisuda? Sem sal. Sem açúcar. Com gosto de xarope caseiro. Por que a vida não namora? Não trai? Não dança? Não vai ao cinema?

Por que a vida só assiste novela e jornal na tv? A vida vota no mesmo candidato canalha. Almoça no mesmo restaurante. Compra todos os móveis à prestação. Que mal tem a vida que a gente não sabe? Que ferida é esta que não sara?

A vida não sai de casa. Não fuma cigarro. A vida não grita. Não fala. Não sussurra canções de amor. Que pacto é este que a vida tem com o diabo, com o capeta, com o encardido? A vida não dorme. A vida não ri. Parece estátua. Parece túmulo. Por que a vida não sai em escola de samba? Não brinca de boi-bumbá? Por que a vida não come pé de moleque, arroz doce, pão de ló? A vida é tão magra, meu pai. Tímida. Frígida. Indiferente. Gente difícil de agradar. A vida devia tomar veneno de rato, se jogar da ponte. Enfim, meu Deus, se matar.

Por que a vida não toma coragem? Não toma remédio? Não toma banho de sal grosso? Não faz promessa? Não faz despacho? Não amola faca? Não benze a casa? Não pede a bênção? Não reza terço? Que escarcéu. Que escárnio. A vida não vive, meu Deus.


Confissão

Aqui é meu canto. Meu chão. Deixa eu dizer pra aliviar: não sou pecador não. Ou melhor, sou sim. Não desses que pecam em vão. Só tenho um tanto de teimosia. Um tanto de ambição. Um pouco de saliência porque a carne é fraca e é caro o pão. Mas não me arrependo. Não sou homem de voltar atrás, de levar desaforo pra casa. Todos de Aqui sabem. Todos de Aqui vêem. E quem se atreve a desdizer?

Não sou homem de má fé não. Nem de mexer no que não é meu. Nem de calar gente de sabedoria. Mas sou de ficar em silêncio quando é tempo. Guardo a arma quando não é preciso mais guerra. E não fecho a porta quando é pra abri-la.

Sou como José, esposo-mancebo de Maria. Sei quando acaba a cena. Mas entendo pouco das coisas. Por que Judas traiu o Cristo? Por que Pedro negou Jesus? Por que Pilatos deixou o filho de Deus morrer na cruz? Pra mim não tem perdão. Não gosto dessa gente sem dó, sem coração. Gente sem valentia. Sem força na alma. Filho bom não trai, não nega e não entrega o irmão.

Mas de uma coisa eu gosto. Do presépio. O menino Jesus bem pequeno dentro daquela manjedoura cheia de palha. E os burros, as vacas, as ovelhas com uma paz no olhar. A virgem Maria. Os magos. Aí eu sinto uma alegria sem nome, uma vontade esquisita de chorar. Dá saudade da mãe. Dá vontade de ir embora de Aqui.

Mas Aqui é meu canto. Meu chão. Não posso partir de Aqui. Já imaginou deixar casa, mulher e criança com fome. O que vão falar? Quantos fuxicos vão fazer? Mas não posso negar não.

Por vezes, tenho vontade de sumir pra lugar que não tem no mapa. Bem longe de Aqui. E não ter mais obrigação. Fazer coisa nenhuma que preste. Viver de sonho besta. De andar pelo mundo sem direção. De amar e desamar qualquer hora. Viver sem o peso das horas apertando a mão. É isso. Se isso é pecado me diga, então. Por Deus, quero a absolvição.


A curandeira

O que dizer? O senhor não sabe. Quantos filhos a dona tem? Quantas bocas ela tem pra dá o de comer? Quantos pratos sobre a mesa? Quantos metros de tecido ela precisa pra vestir tanta gente? O senhor o que faz?

A dona reza o rosário toda noite. Defuma a casa. Joga água benta na porta. Faz promessa pra São Benedito. Agora, o senhor vem com essa conversa que a dona não crê. Não crer em quem? No senhor ela não credita mesmo não. Nem nos olhos encardidos que o senhor tem. Nem no rosto liso e no terno acinzentado.

Ela não usa óculos porque não quer. A vista dela foi entregue pra Santa Luzia. A fé dela é no Senhor do Bonfim. A dona é mulher direita. Mãe de família. Costureira da irmandade.

A dona sabe ladainha de cor. Sabe o nome e o sobrenome da gente. É chamada de mãezinha por toda a região. E o senhor vem com esse monte de papel. Essas letras miúdas. Essas palavras difíceis. Essas desculpas esfarrapadas. Antes de prender a dona vai prender o meu pai, a minha mulher, o meu irmão e a mim também.

O senhor leve o meu gado. A minha casa. Mas essa dona o senhor não leva não. De jeito nenhum. Injustiça é coisa do demônio. O senhor não sabe. Pode chamar juiz, delegado, prefeito, presidente. Pode invocar Dom Sebastião.

A dona fica. Pra curar nossas feridas. Pra ensinar qual chá serve pra essa e pra aquela doença. Pra cuidar do mato e das ervas santas.

A dona fica. Pros nossos filhos nascerem com os cinco dedos na mão. E chorar depois do parto. A dona é parteira velha. Benzedeira. Curandeira. Mulher de saber que ninguém furta. Nem o senhor que é doutor. Nem o senhor que é patrão. O senhor fique avisado. Não ande torto. Segure a língua. A dona não sai daqui não.