Vício ignóbil de linguagem

Mania feia esta de dizer eu te amo. Vício ignóbil de linguagem. Amor é coisa sagrada. Não se pode invocar em vão. É como o nome de Deus. Não adianta chamar toda hora. Amor é surdo. Mistério que ninguém consegue expressar em palavras. Nem com a conjugação correta dos verbos. Prosopopéias. Metáforas. Arrojos. Acrobacias. Subterfúgios. Devaneios. Solilóquios. Sussurros.

Amor é bicho difícil de domesticar. Espírito encantado das colinas. Pluma que se perde ao vento, mas por vezes cai em nossas mãos. É grão de mostarda. Mar morto. Capadócia. Amor é viagem que a gente imagina. Sonho em madrugada fria. Sobrado velho pintado com as cores do inefável. Por isso, é bonito. Cega a vista. Cega a alma. Deixa a gente louco. Estarrecido. Calado. Cheio de lágrimas no canto dos olhos.

Amor é canção de roda. Esconde-esconde. Amigo invisível dos meninos que correm na praça. Carta amarelada das mulheres no alpendre. Rosto na janela. Pão sobre a mesa. Risada interminável.

Amor é gesto. Corpo. São olhares que se entrecruzam de manhãzinha. Não é dizer. Não é conversa. É ato abrupto. Abraço apertado. Silêncio.


Rés-do-chão

“O bicho, meu Deus, era um homem”. (Manuel Bandeira)

Aquele homem viverá – ali – sem rima. A morte será a sua poesia daninha, feito coisa que não serve para mais nada. Viverá sem estrofes e metáforas rarefeitas à esquina da Rua Cipriano Barata com a Travessa Brigadeiro Jordão. Com cachaça e pão seco andará pelas ruas. Sujo. Escuro. Amargo. Falará sozinho. Invejará gaviões e passarinhos. Mas não parecerá nem um nem outro.

Aquele homem – quando vier a chuva – ancorará as suas quinquilharias à porta de um mercado de peixes e adormecerá aturdido sobre sacos de sal. Aquele homem – quando vier o sol – amparará plumas e botões de jacintos sobre um colchão rasgado e um cobertor puído.

Terá cães, gatos e lagartos famintos a sua volta. E os pombos enfeitiçados amarão os seus ombros sofridos. Farão casa. Ninho. Suíte de hotel. O grude do chão amará as suas mãos. Os pés. Os tornozelos. O mau hálito amará a sua boca. O sono estará com ele noite e dia – até que hora ou outra aquele homem acorde e veja o rosto esbranquiçado de Virginia Woolf à sua frente. Quando isto acontecer ele morrerá sem entender por que chove tanto no Brasil.

Lembrará de sua mãe, de seu pai e de Lulu – a cadelinha que cuidava dele quando os pais iam trabalhar no canavial. Terá fome. Sede. Dor de barriga. Terá saudades de quando criança o vô Walfredo dava-lhe presentes de natal e a tia trazia bolo de chocolate.

Aquele homem – velho, podre, barbudo, trapo humano das ruas, aquele rato imundo que só Manuel Bandeira soube descrever – rirá longamente de Deus no julgamento final. Olhará o Senhor dos auspícios e dirá alto: você é o culpado. Tirará do bolso um folheto amarrotado onde está escrito um verso de Fernando Pessoa: tudo vale à pena se a alma não é pequena. Depois andará tribunal adentro para fumar cigarro com o demônio.


O coração do diabo

[esboço]

Duas bêbadas magrelas: pernas e braços maiores que o resto do corpo. A boca maior que o resto do rosto. Misturam cerveja: uísque: cigarro barato em brindes blindados: cacos de vidro: copo americano. E riem esquecidas sobre a calçada duas bêbadas magrelas. O estômago estreito e o fígado largo. Elétricas. Falantes. Fungam a respiração do ar que resta no pulmão espumado. Ardido. Não têm dinheiro. Só centavos imprecisos perdidos no bolso. Sentadas em tambores altos cruzam as pernas. Cruzam os braços. Enquanto a televisão anuncia que o fim está próximo. A chuva vai derrubar todo mundo. Duas bêbadas magrelas devoram esfomeadas o coração do diabo. A vida sozinha caminha . Noite a dentro.


Dona Maura

Dona Maura retirou-se. Deixou a pobreza de São Salvador e ganhou a pobreza de São Paulo. Sem precisar pagar prestação. O cão, o gato, o periquito e os parentes gaiatos ficaram nas ladeiras do Pelourinho. Na escadaria de alguma igreja antiga-antiga.

Dona Maura – mulher cizenta, de olhar fundo e rosto quebrado – agora cata transtornos nas ruas da maior cidade do Brasil. Lata. Papel. Garrafa de plástico.

Investigando sacolas de lixo  já encontrou, à porta dos edifícios, retratos, recados e cartas rasgadas. Só não achou ouro e prata. Nem pedra de ametista. Dessas de anel de princesa em conto de fada.

Dona Maura, outro dia, deu pra conversar. Contar histórias. Explicar desafetos. Lembrou de uma prima risonha que vende cocada nas mediações do Farol da Barra. E do avô analfabeto, trabalhor de plantação de cacau. O velho até conheceu Jorge Amado na época que o escritor (moço-moço) fugiu pros lugarejos distantes da Bahia.

Dona Maura  chorou. A casa dela alagou com a cheia do Tamanduatei, um rio-esgoto. Depois deste acontecimento Dona Maura sumiu. Ficou envergonhada.

Não quis admitir que pobreza, esta ou aquela, amolece coração.


A vida

“A sorrir eu pretendo levar a vida”. (Cartola)

Por que a vida não melhora? Não se ajeita? Não arranca da cara este monte de cravos? Não pinta os beiços com batom? Não compra um vestido rosa choque? Não sai à noite pra beber?

Meu Deus, por que cargas d’água a vida é assim tão sisuda? Sem sal. Sem açúcar. Com gosto de xarope caseiro. Por que a vida não namora? Não trai? Não dança? Não vai ao cinema?

Por que a vida só assiste novela e jornal na tv? A vida vota no mesmo candidato canalha. Almoça no mesmo restaurante. Compra todos os móveis à prestação. Que mal tem a vida que a gente não sabe? Que ferida é esta que não sara?

A vida não sai de casa. Não fuma cigarro. A vida não grita. Não fala. Não sussurra canções de amor. Que pacto é este que a vida tem com o diabo, com o capeta, com o encardido? A vida não dorme. A vida não ri. Parece estátua. Parece túmulo. Por que a vida não sai em escola de samba? Não brinca de boi-bumbá? Por que a vida não come pé de moleque, arroz doce, pão de ló? A vida é tão magra, meu pai. Tímida. Frígida. Indiferente. Gente difícil de agradar. A vida devia tomar veneno de rato, se jogar da ponte. Enfim, meu Deus, se matar.

Por que a vida não toma coragem? Não toma remédio? Não toma banho de sal grosso? Não faz promessa? Não faz despacho? Não amola faca? Não benze a casa? Não pede a bênção? Não reza terço? Que escarcéu. Que escárnio. A vida não vive, meu Deus.


Confissão

Aqui é meu canto. Meu chão. Deixa eu dizer pra aliviar: não sou pecador não. Ou melhor, sou sim. Não desses que pecam em vão. Só tenho um tanto de teimosia. Um tanto de ambição. Um pouco de saliência porque a carne é fraca e é caro o pão. Mas não me arrependo. Não sou homem de voltar atrás, de levar desaforo pra casa. Todos de Aqui sabem. Todos de Aqui vêem. E quem se atreve a desdizer?

Não sou homem de má fé não. Nem de mexer no que não é meu. Nem de calar gente de sabedoria. Mas sou de ficar em silêncio quando é tempo. Guardo a arma quando não é preciso mais guerra. E não fecho a porta quando é pra abri-la.

Sou como José, esposo-mancebo de Maria. Sei quando acaba a cena. Mas entendo pouco das coisas. Por que Judas traiu o Cristo? Por que Pedro negou Jesus? Por que Pilatos deixou o filho de Deus morrer na cruz? Pra mim não tem perdão. Não gosto dessa gente sem dó, sem coração. Gente sem valentia. Sem força na alma. Filho bom não trai, não nega e não entrega o irmão.

Mas de uma coisa eu gosto. Do presépio. O menino Jesus bem pequeno dentro daquela manjedoura cheia de palha. E os burros, as vacas, as ovelhas com uma paz no olhar. A virgem Maria. Os magos. Aí eu sinto uma alegria sem nome, uma vontade esquisita de chorar. Dá saudade da mãe. Dá vontade de ir embora de Aqui.

Mas Aqui é meu canto. Meu chão. Não posso partir de Aqui. Já imaginou deixar casa, mulher e criança com fome. O que vão falar? Quantos fuxicos vão fazer? Mas não posso negar não.

Por vezes, tenho vontade de sumir pra lugar que não tem no mapa. Bem longe de Aqui. E não ter mais obrigação. Fazer coisa nenhuma que preste. Viver de sonho besta. De andar pelo mundo sem direção. De amar e desamar qualquer hora. Viver sem o peso das horas apertando a mão. É isso. Se isso é pecado me diga, então. Por Deus, quero a absolvição.


A curandeira

O que dizer? O senhor não sabe. Quantos filhos a dona tem? Quantas bocas ela tem pra dá o de comer? Quantos pratos sobre a mesa? Quantos metros de tecido ela precisa pra vestir tanta gente? O senhor o que faz?

A dona reza o rosário toda noite. Defuma a casa. Joga água benta na porta. Faz promessa pra São Benedito. Agora, o senhor vem com essa conversa que a dona não crê. Não crer em quem? No senhor ela não credita mesmo não. Nem nos olhos encardidos que o senhor tem. Nem no rosto liso e no terno acinzentado.

Ela não usa óculos porque não quer. A vista dela foi entregue pra Santa Luzia. A fé dela é no Senhor do Bonfim. A dona é mulher direita. Mãe de família. Costureira da irmandade.

A dona sabe ladainha de cor. Sabe o nome e o sobrenome da gente. É chamada de mãezinha por toda a região. E o senhor vem com esse monte de papel. Essas letras miúdas. Essas palavras difíceis. Essas desculpas esfarrapadas. Antes de prender a dona vai prender o meu pai, a minha mulher, o meu irmão e a mim também.

O senhor leve o meu gado. A minha casa. Mas essa dona o senhor não leva não. De jeito nenhum. Injustiça é coisa do demônio. O senhor não sabe. Pode chamar juiz, delegado, prefeito, presidente. Pode invocar Dom Sebastião.

A dona fica. Pra curar nossas feridas. Pra ensinar qual chá serve pra essa e pra aquela doença. Pra cuidar do mato e das ervas santas.

A dona fica. Pros nossos filhos nascerem com os cinco dedos na mão. E chorar depois do parto. A dona é parteira velha. Benzedeira. Curandeira. Mulher de saber que ninguém furta. Nem o senhor que é doutor. Nem o senhor que é patrão. O senhor fique avisado. Não ande torto. Segure a língua. A dona não sai daqui não.


Mestre de carpir

Carpir. Carpir. É atrevimento do mato nascer assim. Como se não tivesse noite pra descansar. Cama pra dormir. Haja força nos braços pra lutar com capim e erva daninha. Haja coragem no corpo pra vencer mordida de formiga de fogo.

É manhã e tarde debaixo do sol. O rosto vai escurecendo-escurecendo. Quem é branco fica preto. Haja vontade de reclamar pro patrão. Não tem jeito não. O risco é perder o emprego. Nunca o trabalho. Já viu pobre descansar? Ócio é coisa de rico. Pobre trabalha até em sonho.

A enxada está sempre lá. Encostada na parede. O jeito é pegar o esmeril e amolar. O metal brilha-brilha como o pisca-pisca no presépio do Menino Jesus. A gente põe a enxada nos ombros e sai de casa cedinho. Antes de o dia raiar. De o galo cantar. E vai pela estrada carpindo o mato do mundo.

Primeiro o suor toma conta do rosto. Depois se mistura com as lágrimas dos olhos. Suor é lágrima do corpo. É vazão da alma. E quando um homem chora não é de dor não. É de saudade.

Acho que o mato não desiste da gente. Cresce-cresce feito criança. Mas é preciso cortar o mato pra ficar só a terra. Tudo limpo. Sem vida. Por mim eu não carpia mato não. Deixava mato brotar. Árvore crescer. Até virar floresta.


Não sei

Não sei assoviar. Dengar nenê. Rodopiar. Cavoucar a terra pra plantar roseira. Não sei jogar bola de gude. Jogar nenê pro ar sem deixar cair. Não sei nadar. Se barco afundar morro de bom grado. Andar de bicicleta: ando meio torto. Dançar: danço meio torto. Rir: rio torto mesmo. Não sei fazer gol, correr, festejar. Não sei como aparece som dentro do rádio. Imagem na tv. Como surgiu o mundo, o mar e as coisas brilhosas do céu. Não sei descer de árvore, nem subir. Desenhar pássaro, espantalho, jabuti. Nunca vi assombração, caipora, saci-pererê. Não sei remar, estalar os dedos, sacudir as costelas, virar os olhos, brincar de fingir de morto. Rasgar carta velha, bilhete desaforado. Não sei abrir porta sem chave, portão sem chave, carro sem chave. Não sei guardar segredo. Falar baixinho. Cantar cantiga de ninar, ciranda, canção de roda. Segurar guarda-chuva. Fazer pião rodar na palma da mão. Pregar chiclete debaixo da mesa. Esticar os braços até o teto. Ficar escondido atrás da porta. Ficar de mal. Fazer judiação. Roubar beijo. Cativar riso. Entrar em lugar desconhecido sem permissão. Não sei rezar. Dizer adeus. Acordar de manhãzinha pra ver o sol nascer. Não sei partir.


Um homem sozinho numa mesa de bar

Que coisa mais triste um homem sozinho numa mesa de bar. Um homem sem nome. Sem rosto. Sozinho numa mesa de bar. Um homem tomando quatro ou cinco cervejas. Fumando cigarro. Carregando o ar com o cheiro acre duma sofreguidão antiga. Um homem murmurando uma canção desconhecida. Olhando a fotografia de Charles Chaplin na parede. Namorando o retrato de Brigitte Bardot. Dá vontade de sentar com aquele homem. Conversar com aquele homem. Fazer aquele homem rir. Trazer para aquele semblante qualquer gesto terno. Um movimento brando. Um tiquinho de alegria que seja. Mas o homem continua lá deitando de um lado e para outro um caroço de amendoim. Feito Sísifo carregando a pedra. Feito Wladimir e Estrangon. Até que, numa certa altura, o homem levanta, paga a conta e vai para casa em passos lentos. Quase contados. Abre a porta e depois ninguém mais o vê. Dá um aperto no peito. Uma coisa na garganta. Dá uma dó. Que coisa mais triste um homem sozinho numa mesa de bar.


Não ame um homem bêbado

Não ame um homem bêbado, um mancebo troglodita que anda com um litro de cachaça na mão e uma flor murcha na outra. Os bêbados são amantes grudentos, do tipo chiclete. Mas correm o risco de dizer Jurema ao invés de Marilu. E podem dizer Tereza, Amélia, Luiza, Carlota Joaquina, meu amor.

Não ame um homem bêbado. Os bêbados fedem, urinam na esquina, arrotam na mesa. Os bêbados são barrigudos. São cafajestes. E devem, devem, devem. Devem até o último fio de cabelo. E um bêbado careca parece mais bêbado ainda.

Não ame um homem bêbado. Os bêbados não falam coisa com coisa. Prometem mundos e fundos. Os bêbados cambaleiam. Choram. Riem de piada sem graça. Os bêbados cospem no chão. Os bêbados são tristes. Resmungam por causa da mulher que partiu, do filho que partiu, da sogra que partiu, da vizinha que partiu, do amigo da vizinha que partiu, do amigo do amigo da vizinha que partiu.

Não ame um homem bêbado. Os bêbados não entendem de política. Confundem deputado com senador e vereador com governador. Os bêbados só vão à igreja quando erram a porta do bar. E pensam que altar é balcão e padre é garçom. Os bêbados beslicam a bunda das velhas. Não pedem licença e sempre têm na ponta da língua um palavrão: vai tomar naquele lugar fulano, enfia naquele lugar sicrano.

Não ame um homem bêbado. Os bêbados compram fiado. Pedem dinheiro emprestado. Não sabem ler placa de rua. Andam por aí feito doido varrido. Alma penada. Cachorro sem dono.

Não ame um homem bêbado. Os bêbados dormem nas calçadas. Não têm conta em banco. Casa de campo. Casa de praia. Não viajam pro exterior. Bêbado não usa gravata. Não sabe o que é paletó. Bêbado não fala inglês.

Não ame um homem bêbado. Bêbado não sabe o que é amor.


Manhã desconstruída

Até tento gostar da manhã. Acordo cedo para ter certeza que o dia tem começo, não só meio e fim. Abro devagar a janela. Devagar a porta da rua. Devagar abandono as mazelas da noite. Mas a manhã não me convence. A manhã é doce. Lírica. Pomposa. Melosa. Fogo de palha. Alegria pouca.

A manhã castiga, humilha. Quem ousa, mesmo de longe, equiparar-se ao brilho mais diminuto da manhã? A manhã é poderosa. Esnobe. Rica. Donzela. Dama. A noite é que é vagabunda, desnorteada, puta de esquina pobre. Angu de caroço. Visão ofuscada. Misteriosa. Mascarada. Sombria.

A noite pare. A manhã cria. A noite apronta. A manhã socorre. A noite esconde. A manhã mostra.  A noite leva. A manhã traz. A noite bate. A manhã acaricia. A noite promete. A manhã renuncia.

Boazinha a manhã. Altruísta. Humanista. Ativista. Solidária. Mas dá uma agonia a claridade exagerada da manhã. Esse gosto de sol na boca. Gosto de vento atravessando a goela. Meu Deus, nem tudo pode ser visto, entendido, estudado, esclarecido. Nem tudo pode ser entregue de mão beijada. O que as pessoas vão fazer sem seus medos, seus fantasmas, seus algozes, seus desejos escondidos?

Quando vejo a manhã dói a vista. Fecho devagar a janela. Devagar a porta. Depois durmo-durmo. Até a noite voltar.


O último corpo

Que a noite chegava era certo. Se perdessem todas as certezas uma jamais se perderia: que a noite chegava para ele como a liberdade. E ia, sem destino, pelas ruas. Solitário perambulava entre placas. Ninguém o conhecia. Nem ele mesmo. O rosto para ele era uma recordação vaga. Porque só lembra o rosto quem olha por horas diante do espelho. Ele não gostava de espelho. Não gostava do reflexo de coisa alguma. Irritava-se com a desfiguração dos objetos e das pessoas diante dos vidros das portas e das janelas. Olhava para frente como se procurasse ardentemente o término do dia. Na verdade, não procurava nada. A noite que chegava era apenas a certeza de que podia, enfim, pensar em nada. Que um vazio invadiria o olhar e ele não enxergaria nada.

Mas um dia, à noite, viu um corpo. Quase nu. E o corpo se movimentava. Foi nesse dia que ele começou a vê. Era um corpo belo, um aglomerado de músculos e carnes e um suspiro: era um corpo belo. Suado. Um corpo debaixo dum pequeno pedaço de pano. E o pedaço de pano cobria as partes íntimas. Mas que são partes íntimas?  Para ele todas as partes do corpo eram íntimas.

O corpo andava sobre as calçadas, o corpo cuspia, furtava a energia da noite. O corpo brilhava, partia. Meu Deus! Não! O corpo partia. Mas as costas do corpo eram belas como o corpo era belo. Ele respirava fundo e imaginava o segredo daquele corpo. Por Deus! Que ele corresse, que ele gritasse: o corpo partia, adentrava a noite.

E ele desejava ter aquele corpo para si. Queria que aquilo que viu fosse seu. Queria vê aquele corpo todas as noites e dias e noites. Ele enlouqueceu. Quando dormia era com aquele corpo que sonhava. Com aquelas mãos e pernas e braços e bocas. Ele queria tocar aquele corpo. Beijar talvez. Era uma vontade de contemplar aquele corpo por horas a fio. Uma vontade louca de contemplar aquele corpo como se contemplasse o nada. Ele vivia porque aquele corpo se movimentava em algum lugar.

E, desde então, não ficou uma noite sequer sem andar pelas ruas à procura daquilo que lhe enchia os olhos de delírio e aflição. Que viesse o sono, a morte: era aquele corpo que ele queria. Não quis mais comer, cantar (ele cantava), nadar (ele nadava), sorrir (ele não sorria). Nada mais tinha sentido a não ser aquele corpo.

Um dia ele gritou: o corpo pôs-se diante de sua porta. Ele viu. Era o corpo belo que ele tanto desejava contemplar por horas a fio, o aglomerado de músculos e carnes e suspiros: era o corpo belo. Suado. O corpo debaixo de um pequeno pedaço de pano. E o pedaço de pano cobria as partes íntimas. Mas para ele todas as partes do corpo eram íntimas. Ele deu um passo vagaroso até o corpo, beijou o semblante. Era realmente o corpo mais belo do mundo. Mas o corpo estava morto.


Antônia Marimbondo

Sabe Deus onde nasceu. Sabe Deus de onde saiu. Veio de longe. Veio do mato. Só carrega os sonhos e os panos de bunda num saco rasgado. O saco pesa. A vida pela frente. Os buracos da estrada. A ladeira da favela. Sabe Deus pra onde vai. Pro convento? Pro bordel? Sabe Deus. Mas Deus não  lembra dela. Fez promessa. Fez despacho. Nem promessa, nem despacho concertaram a vida torta. Resolveu fazer pacto com o diabo. O diabo não aceitou.

Se matou a desgraçada.


Reza

Vambora, meu bem. Que a Ave-Maria chegou no amém. Que a boca da noite brilhou. Mas o luar do sertão apagou, porque Padim Ciço morreu.

Vambora, meu bem. Que Maria Bonita já vem. Que a boca da noite brilhou. A asa branca não voou. A chuva não choveu e a colheita desfaleceu na terra seca.

Vambora, meu bem. Enquanto este sonho aqui nasce.  Enquanto não floresce o massacre. Enquanto o sertanejo ainda vive.

Vambora, meu bem. Que a Ave-Maria chegou no amém. Que a Ave-Maria chegou no amém.


Morenidade

Que é que o teu corpo tem que dá vontade de tê-lo perto sempre? Coisa estranha a morenidade do teu corpo. A morenidade de que gosto tanto. E repito aos ares: arte bonita a morenidade. Acerto de Deus que não escureceu nem clareou. Deixou o teu corpo com o tom da tardinha, quando a noite vem chegando, mas o dia ainda insiste em ficar.

E o teu riso? Quem edificou a candura do teu riso? Quem mensurou esta mistura de dor e alegria numa dose só? E o teu olhar? De onde vem este modo de dizer as palavras em silêncio?

Dá vontade de partir para os campos e levar nas mãos uma gaiola como quem vai procurar passarinhos. Dá vontade de prender o teu corpo. De deixá-lo à vista. De domá-lo. Mas me diz: existe visão mais triste que um passarinho preso? Não há. Por isso, esqueço o meu querer, o meu impulso. Vai. Me contento com o teu corpo a caminho das ruas, tomando o sol das ruas. E sinto aquele nó.

Queria o teu corpo pra mim.


Nico

 A voz de Nico cantando Femme Fatale. A voz de Nico deixando aos poucos o fone de ouvido. O rosto de Nico dentro dos meus cílios. A noite solitária de sábado. As vozes na esquina. Uma multidão se perde. Nico está comigo sentada no canto da cama. Nico ri. Fala qualquer coisa sobre os jacintos que plantei no jardim hoje à tarde. É preciso molhá-los, Nico diz. Nico fecha os olhos. Encara-me seriamente. Nico ri outra vez. Reclama que eu esqueço tudo. Que não posso deixar os jacintos morrerem sem água. Mostro pra Nico as fotos de quando eu era menino. O jardim da vó era onde tirávamos as fotos com roupas de domingo. Depois de meses recebíamos as revelações coloridas. Éramos tão bonitos, Nico. E eu sinto saudade daquilo. Queria nunca mais sair de lá. Do jardim da vó. Por isso, vou cuidar dos jacintos. Vou acordar cedo para cuidar dos jacintos. Eu prometo, Nico. Não faça promessas, Nico diz. Ela levanta. Olha-se no espelho. Arruma o cabelo. Passa batom. Eu arrumo os livros sobre a cama. Entrego nas mãos de Nico um poema de Fernando Pessoa. Nico chora. Senta-se outra vez na cama. Levanta outra vez. Olha outra vez para mim. Vamos embora, Nico diz. Dois minutos depois partimos. Domados pela noite.


Panfleto

Meu nome, Joana, meu nome é sem. Sem pai, sem mãe, sem irmão também. Sem estas coisas todas que as pessoas têm sobre o corpo, dentro das casas. Sem estantes e sapatos e aquários em cima das mesas. Sem cama pra deitar. Sem roupa pra passar. Sem caneta pra assinar o próprio nome.

Meu nome, Joana, meu nome é sem. Sem igreja pra rezar. Sem arma pra matar o presidente. Sem uma gota d’água pra beber. Sem crer em qualquer ser superior. Sem medo de rir das desgraças do mundo. Sem bordéis pra ir. Sem graça alguma de viver por aí feito um rato assombrado num sobrado velho.

Meu nome, Joana, meu nome é esculhambação. É este suor que não finda. Esta fome miserável acorrentando o corpo. Esta raiva. Esta indignação latente. Esta vontade de falar mal da mãe dos transeuntes.

Meu nome é este olho partido. Esta boca calada. Este sonho esquecido. Esta vida parada. Este cortejo contínuo para qualquer cemitério da cidade. Estes faróis de carro que não apagam nunca. Este barulho sofrido que azucrina o ouvido. Esta cantiga que se repete como uma oração desconhecida.

Meu nome, Joana, meu nome é escombro, muralha, gueto, apartheid, campo de concentração. Meu nome é escárnio, escória, desdém. Meu nome é sem. Sem estas coisas todas que as pessoas têm nos armários, nas gavetas, nas bolsas, nas malas, nas carteiras, nas sacolas. Meu nome é isto é aquilo. Aqui. Acolá. É porta. Parede. Assoalho. Esgoto. Sarjeta. Meu nome é resto. Ferida. Escravidão. Meu nome é cão. Faminto.


Livrai-nos, Deus, nosso Senhor

Livrai-nos, Deus, nosso Senhor, de Fellini, Antonioni, Godard. Não entendo Wood Allen, Scorcese, Pasolini. Valei-me, meu Frei Galvão. Não gosto daquela gente triste dos filmes de Bergman. Das histórias de Luis Buñuel. Valei-me, Frei Damião. Pouco sei do que diz Wladimir Herzog, Stanley Kubrick, Akira Kurosawa. Que coisa complicada essa gente Cult, underground.

Livrai-nos, Deus, nosso Senhor, de discussão. Retórica. Oratória. Jargão. Que diabos é uma prosopopéia? Valei-me, minha Santa Rosa. Valei-me, meu Santo Antão do Egito. Meu Santo Antão, eremita. Pai de todos os monges.

Livrai-nos, Deus, nosso Senhor, de Thadeus Kantor, Bertold Brecht, Antonin Artaud. Isso é nome que se diga. Parece xingamento. Reza pro capiroto. Não serve não. Nem pra nome de filho bastardo. Prefiro Maria, José, João. Antônio, Francisco, Raimundo da Silva. Que pecado chamar o menino de Constantin Stanilavski, Jerzy Grotowski, Samuel Beckett, Ionesco. Livrai-me, meu São Simão Apóstolo, do teatro pobre. De pobre já basta a minha gente.

Livrai-nos, Deus, nosso Senhor, de Miró, Manet, Monet. A gente se assusta com aquelas cabeças de vaca estranguladas de Picasso. Com aqueles quadros de Dali. Onde já se viu mulher flutuar, relógio derreter, tigre voar?

Livrai-nos, Deus, nosso Senhor, de monografia, tese, dissertação. Ensaio, tratado, aforismo, sermão. Perdoe-me, Padre Antônio Vieira. Frei Francisco de Monte Alverne. Valei-me, Santa Bárbara. Pra que serve a metafísica, a epistemologia, a ontologia? Qual a valia da razão? Socorrei-nos de Heráclito, Sócrates, Platão.

Livrai-nos, Deus, nosso Senhor, de Darwin, Nietzsche, Karl Marx, Freud. Vai de reto Rosseau, Hegel, Husserl, Horkheimer, Sartre, Wittgenstein. Vai de reto a maiuêtica, a Geist, a durée, o Dasein. A glândula pineal.

Bem aventurada seja a santa ignorância de todos os dias. Que ela nos abençoe e nos ilumine.


Destinatário

Destino? Destino é coisa incerta. Segredo sagrado. Discussão que não deve ser feita, porque não tem desfecho. È desleixo jogar tempo fora, ficar horas e horas pensando no que vai acontecer. Há controvérsias que nem o Pai do Céu consegue resolver.

Destino? Destino é a morte. A única coisa certa para o homem é padecer. Cair por terra. Finar-se com o corpo quedado no chão. E depois virar chão. E pronto. É isso. O que mais pode ser?

Destino? Destino é tempo que passa. É sino que bate na igreja. É ponteiro de relógio. Ninguém domina. Ninguém amarra. Ninguém escapa. Só resta contar, contar, contar. É manhã. Tarde. Noite. Inverno. Outono. Primavera. Verão. É lua. É sol. É claridão-escuridão. É alento que a gente não vê.

Destino? Destino é farsa. Mentira. É invenção tola. Enganação boba. Conversa de gente que não tem o que fazer. Como alguém pode crer que a vida está acertada desde o dia do nascimento? Que não há envolvimento do próprio homem em sua empreitada mundo adentro? Como alguém pode crer?

Destino? Destino é labuta. Suor no rosto. Suor no corpo. É peso nas costas. É trabalhar, porque quem cedo madruga Deus ajuda. É mover as forças numa construção contínua. É a consumação da própria vida. É sonhar, lutar e vencer.

Destino? Destino é amar. Deixar o coração ao vento. É encantamento. É roseira na mão. É andar pelas ruas enlouquecido. Com olhar enternecido, boca seca e falta de ar. É rir sem motivo. É chorar sem razão. É curvar-se diante das ilusões da vida. É saber andar. Correr. Viver. Morrer. Ganhar. Perder.


A atriz

(era quase meia noite e cinqüenta e quatro minutos e eu comecei a escrever estas coisas absurdas sobre a atriz de ontem à noite o certo é que a atriz olhou para mim e me fez calar toda ela a atriz me fez ficar inerte a atriz era a mulher mais linda do mundo ela fumava e ria da minha cara de mim eu estava lá diante da atriz acho que a atriz era cega e me olhava com os lábios mas os lábios da atriz (acho que não podiam beijar) tinham gosto de sal como aquela onda que senti adentrar minha boca quase meia noite e cinqüenta e quatro minutos quando tentei nadar a atriz usava um sobretudo preto ela foi para um país estrangeiro para a frança eu acho todo mundo um dia vai à frança principalmente uma atriz sei lá a atriz vestia tudo preto até os olhos eram pretos e se confundiam com o cenário a atriz era toda ela escura como a noite eu não sabia se era ela (a atriz) ou a noite que me fazia chorar naquele palco todo ele negro como a noite eu fiquei como louco a atriz é louca não adianta vir com argumentações a atriz é louca como eu sou louco não sei a atriz gritou eu queria gritar com as veias mas não consegui a atriz não me deixou gritar ela estava entre dois homens a atriz cantava e eu não consegui ir adiante e agora quase meia noite e cinqüenta e quatro minutos vesti um sobretudo preto  e estou à espera  da atriz na janela da casa número 78 e já não sei mais quem espera a atriz se sou eu ou a noite)


Dueto

Um

Ela veio para perto de mim toda assanhada, com aquele rebolado engraçado. Usava um perfume forte, uma roupa vermelha, uma bolsa azul. Muito azul. Olhou para mim ansiosa e foi logo perguntando: onde fica a Avenida D. Pedro I, moço? Será que vai chover? O ônibus demora pra chegar? Foi assim que a bichinha foi se aproximando de mim, tomando intimidade, me envolvendo com aquela conversa mole de quem tinha segundas, terceiras, quartas e até quintas intenções. Eu até gostei, mas aos poucos ela foi tocando os meus ombros, os meus braços. Depois roçou as minhas pernas. Aí comecei a enfurecer. Tomei jeito de homem, falei grosso, mostrei o tamanho do meu peitoral e dei uns tapas na bichinha. Não podia aceitar aquela liberdade. Aquele descaramento. A bichinha tremeu, gritou e saiu correndo perdida na rua meio escura.

Dois

Quando cheguei no ponto de ônibus logo notei o moço bonito encostado no poste. O moço forte, vestido de camisa regata, mostrando nos braços uma tatuagem de dragão. O moço faz academia, pensei. Faz qualquer uma subir as paredes, derrubar a cama, a casa, a rua inteira. Aí não tive dúvida e perguntei: onde fica a Avenida D. Pedro I, moço? Ah, será que vai chover? O ônibus demora pra chegar? O moço respondeu com educação. Deu confiança e eu toquei na tatuagem de dragão, acariciei e sorri. O moço não gostou. Olhou para mim enfurecido. Levantou o braço e me deu um tapa. Aí eu tremi, gritei e depois corri para bem longe do moço. Bicha, só sofre, meu Deus.


Filme mudo

Devia ser proibido dizer: bom dia, boa tarde, boa noite. Feliz natal. Feliz páscoa. Feliz ano novo. Essa gente toda não pára de cumprimentar, falar, desfalar, repetir. Assim, não há quem trabalhe. A fila não anda. O caixa empaca. O patrão reclama. A clientela exige pressa.

Devia ser proibido contar coisas pessoais para a caixa de supermercado. Com isso, a gente adiantaria o trabalho. Não teria interesse na história daquela senhora que colocou um detetive para investigar o marido e descobriu que a amante dele é uma amiga conhecida da família.

Haja concentração: contar dinheiro, passar cartão e ainda ouvir desabafo, segredo, reclamação. Um dia é o aniversário do filho, no outro do irmão. Um dia a filha sai de casa, no outro o esposo da repartição. Um dia é viagem para o Chile, no outro para o Sudão. Um dia é passeio de barco, no outro de avião.

Meu Deus, que aflição: eu fico aqui dia e noite sem nenhuma compaixão marcando o preço da carne, do arroz, do feijão. Devia ser proibido tanto burburinho no ouvido, sussurro, falação. A gente devia trabalhar em silêncio sem nenhuma perturbação. Passar a mercadoria, receber o pagamento e pronto: sem complicação. Como num filme mudo.


O guarda na porta da biblioteca

O guarda na porta da biblioteca. Um homem sozinho, aos trinta e cinco anos, com uniforme preto, coturnos grandes, olhar fixo. Um homem alto. Forte. Rosto ríspido. Sobrancelhas grandes. O guarda na porta da biblioteca. Com sede. Com fome. Mudo. Estático. Olhando leitores afoitos, aflitos domando jornais, revistas, periódicos, classificados, poemas, romances, novelas de amor. O guarda na porta da biblioteca. Não pode sentar-se, aquietar-se e ler cauteloso Bandeira, Drummond, Quintana, Gullar. Não pode amar Bentinho. Capitu. Fabiano. Sinhá Amélia. Riboaldo. Diaodorim. Não pode chorar com Iracema. Gabriela. Madame Bovary. O guarda na porta da biblioteca. Em pé como Policarpo Quaresma. Quaderna. Josef K. Mersault. Um homem que – longe – não consegue enxergar verbos, sinônimos, metáforas, antíteses, ironias, adjetivos. O guarda na porta da biblioteca. Apartado de dicionários. Atlas. Enciclopédias. Capas. Contracapas. Brochuras. Orelhas. Um homem sozinho, aos trinta e cinco anos, que não pode sentir o cheiro antigo da poeira que brota das páginas e nos arrasta – ligeiro, ligeiro – para dentro dos livros. O guarda na porta da biblioteca.


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