Mania feia esta de dizer eu te amo. Vício ignóbil de linguagem. Amor é coisa sagrada. Não se pode invocar em vão. É como o nome de Deus. Não adianta chamar toda hora. Amor é surdo. Mistério que ninguém consegue expressar em palavras. Nem com a conjugação correta dos verbos. Prosopopéias. Metáforas. Arrojos. Acrobacias. Subterfúgios. Devaneios. Solilóquios. Sussurros.
Amor é bicho difícil de domesticar. Espírito encantado das colinas. Pluma que se perde ao vento, mas por vezes cai em nossas mãos. É grão de mostarda. Mar morto. Capadócia. Amor é viagem que a gente imagina. Sonho em madrugada fria. Sobrado velho pintado com as cores do inefável. Por isso, é bonito. Cega a vista. Cega a alma. Deixa a gente louco. Estarrecido. Calado. Cheio de lágrimas no canto dos olhos.
Amor é canção de roda. Esconde-esconde. Amigo invisível dos meninos que correm na praça. Carta amarelada das mulheres no alpendre. Rosto na janela. Pão sobre a mesa. Risada interminável.
Amor é gesto. Corpo. São olhares que se entrecruzam de manhãzinha. Não é dizer. Não é conversa. É ato abrupto. Abraço apertado. Silêncio.
